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L’Éléphant,
e a arte de criar interiores que não pertencem a um só tempo.

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Camadas sobrepostas, numa dança permanente entre o contemporâneo e o clássico, formam a “casa” L’Éléphant. Joana Correia e Álvaro Roquette chamam de “nascimento acidental” aquilo que os aproximou, mas hoje pouco deixam ao acaso. Trabalham a arquitetura de interiores, o mobiliário, a arte e os objetos com intencionalidade, cruzando épocas, geografias e referências. E é, muitas vezes, na conversa, que encontram a ponta do novelo de cada projeto. Com trabalho desenvolvido em Portugal e no estrangeiro, contam por que preferem fugir às tendências, o que trazem das viagens e como a cor pode ser uma “fórmula mágica”.

Antes de falarmos da L’Éléphant, quem são o Álvaro e a Joana e que experiências moldaram a vossa forma de olhar para os interiores?

JOANA. A minha escolha pela arquitetura esteve mais relacionada com o interesse pelos interiores do que propriamente com a grande arquitetura. Sempre foi esse o meu mote e, portanto, apesar de a formação ser generalista, no meu percurso profissional tentei encontrar lugares onde pudesse praticar esta disciplina dos interiores.

ÁLVARO. Eu sou um molde esquisito. Não sou arquiteto, não estudei interiores, mas fui-me moldando na forma de ver coisas, de encontrar coisas, de crescer ao lado de coisas e de absorver a estética do mundo e daquilo que o mundo me foi trazendo. Junto a isto, há as antiguidades, que foram o meu percurso e que fazem com que eu tenha um olhar um bocadinho mais clássico sobre a decoração e os interiores. Mas, como somos dois, o clássico torna-se moderno e o moderno torna-se clássico.

Como nasceu a L’Éléphant e o que sentiam que ainda faltava dizer no setor quando decidiram criar o atelier?

JOANA. A L’Éléphant teve um nascimento acidental, do encontro de duas pessoas de dois universos muito distintos. Sentimos que faltava uma proposta menos de cenografia e mais de vivência real e, portanto, criar ambientes que pudessem ter camadas, vivências e onde a passagem do tempo fosse uma coisa assumida, e não tivéssemos de estar sempre a demolir para construir de novo. Na L’Éléphant, o que propomos é isso: a criação de ambientes completamente diversos, como são as pessoas.

O nome L’Éléphant tem uma força muito particular. Que história existe por detrás?

ÁLVARO. L’Éléphant nasce da necessidade de mudarmos de nome, porque não nos chamávamos assim antes disto; tínhamos um nome igualmente complicado de soletrar. Quem nos fez a nova identidade leu-nos muito bem. E, no fundo, resume-se numa frase que ele disse numa das reuniões: “Vocês são o elefante na sala na decoração”. Acho que ele acertou perfeitamente. Não queremos seguir regras, não queremos ser os certinhos, queremos ser o elefante na sala. Portanto, mostrar que podemos, entre aspas, partir a louça toda.

A L’Éléphant cruza arquitetura de interiores, mobiliário, arte e objetos. Como definem aquilo que fazem sem o limitar a uma única disciplina?

JOANA. Não nos limitarmos a uma só disciplina é um bocadinho a identidade do nosso trabalho. E isso não nos assusta, pelo contrário, é algo que motiva o nosso trabalho. O desenho começa aí, porque é preciso chamar à fala diferentes interlocutores. E isso é estimulante porque acabamos por conhecer outros universos, trabalhar com pessoas diversas e, portanto, para nós isso é que faz sentido na construção de um projeto de interiores. Ele tem de focar-se na personalidade e a personalidade normalmente é múltipla. Não é limitada a um determinado campo.

Como começam um projeto na L’Éléphant: por uma conversa, uma imagem, um objeto, uma cor ou pela própria arquitetura do lugar?

JOANA. O projeto pode começar de muitas maneiras. Eu diria que, em regra, o que nós gostamos de fazer é começar por uma conversa. Até porque quem nos procura é o ator principal e, portanto, é preciso conhecer essa pessoa, ou essas pessoas, ou uma entidade, quando é uma empresa, mas, no fundo, conhecer-lhe a identidade, perceber o que é que querem, com o que é que sonham e começar a encontrar um fio condutor. Quanto mais a pessoa se revela, melhor é o ponto de partida para um projeto.

Num tempo em que tantas imagens de interiores são construídas para serem consumidas rapidamente, como se cria um espaço que continue interessante depois da primeira impressão?

ÁLVARO. Aqui em casa, tentamos fazer projetos intemporais, que perdurem no tempo, que as pessoas vivam nas suas casas, nos seus hotéis e nos seus restaurantes pelo maior tempo possível.

Martela-me na cabeça — no sentido figurado, evidentemente — uma conversa com Jacques Garcia, em Paris, num jantar, onde ele dizia: “Nunca faças nada que esteja na moda, porque rapidamente fica démodé.” E eu acho que é uma regra que a L’Éléphant tem. Não estamos preocupados se o consumidor do Instagram vai embrulhar aquele momento de forma apetecível ou não. Estamos preocupados com o cliente que vai viver num espaço e tem de se sentir bem por muitos e bons anos lá dentro. Portanto, não há imediatismo no nosso pensamento. Há momentos imediatos, há soluções imediatas porque nos são naturais, mas não há uma vivência para o imediatismo.

As viagens têm um papel importante no universo da L’Éléphant. De que forma influenciam o vosso olhar e o processo criativo do atelier??

JOANA. As viagens são aquisição de cultura. De referências. São também tomadas de conhecimento do universo dos próprios clientes. Todas as viagens que fazemos e a história dos lugares que conhecemos são referências que trazemos connosco e que ficam. Materializam-se em objetos que trazemos e que temos aqui dentro do nosso espaço. É uma tentação enorme trazer objetos dos sítios por onde passamos.

O Brasil, e São Paulo em particular, surge como uma referência recorrente no vosso imaginário. O que encontram nessa cultura visual e material que continua a surpreender-vos?

ÁLVARO. São Paulo surpreende-me todas as vezes que lá vou. É uma segunda casa. É um sítio onde me sinto bem, onde gosto de procurar coisas, onde gosto de encontrar coisas do outro mundo, do mundo de lá. E São Paulo traz-me sempre felicidade. Uma feijoada é um momento feliz, um churrasco é um momento feliz. E depois é a fruição cultural. O que o Brasil oferece em termos de movimentos artísticos é impressionante. Até a música, não é? A música do Brasil faz-nos sentir coisas, faz-nos bulir. E quando vivemos numa terra em que ser feliz é quase um crime, é bom irmos ao outro lado do mundo para ver que a criminalidade de ser feliz não existe.

Que lugar ocupa a cor no processo criativo da L’Éléphant: é um ponto de partida, uma consequência ou uma forma de criar tensão?

ÁLVARO. Fico muito contente que me toque a mim falar da nossa relação com a cor. Tenho horror ao branco, ao bege, horror às cores que não têm personalidade e que, portanto, resolvem muito bem as coisas. Tenho a Joana para me contrabalançar nesses temas quando é preciso, puxar-me à realidade, porque, para mim, era tudo cor e nada seria simples nem fácil de olhar. Estou a brincar, evidentemente, mas eu não consigo viver numa casa sem cor. Portanto, transfiro isso para os projetos que faço, porque acredito que as pessoas também não podem viver sem cor. A cor é uma fórmula mágica; é a luz das casas, é o apagar da luz das casas, porque as pessoas estão sempre preocupadas que a casa tenha muita luz, mas a casa às vezes também tem que ter sítios e momentos em que não existe o extraordinário da luz. E a cor resolve tudo isso: absorve quando é preciso, expele quando é necessário.

Se pudessem dar um nome a uma nova cor, como se chamaria e que memória ou lugar guardariam dentro dela?

ÁLVARO. Não querendo ir para lugares longínquos, porque há tantas coisas extraordinárias — estou a lembrar-me da Índia —, há uma cor que me fascina e que, se eu pudesse afiná-la e obter um resultado disso, é a do barro de Niza. Chamar-lhe-ia Niza, talvez. Depois, podia-se tornar isto mais poético, com a mistura do barro de Niza com as pedrinhas encastradas. Daria uma cor linda e quente. É o mais longe que consigo ir na minha memória da cor, e é uma cor que me fascina.

Se tivessem de escolher duas cores da coleção CIN Antologia para construir um interior, quais escolheriam e que ambiente imaginariam para elas?

JOANA. É difícil escolher só duas. Vou escolher uma cor que substitui a neutralidade e que pode ser altamente “descansativa”, no sentido em que não se impõe, mas cria um ambiente de silêncio, que é a Orvalho. No fundo, remete-nos a um espaço privado, de quarto, em que se quer vivenciar uma luz matinal. Ao mesmo tempo, é uma cor que, com a luz artificial, consegue ter uma quentura e um aconchego que num espaço de quarto, por exemplo, me parecem muito adequados. Na mesma família de cores temos a Cipreste, uma cor marcante, escura, densa e que eu escolheria para uma sala de jantar, uma biblioteca, um hall de entrada, um ambiente em que queremos criar um cenário de impacto, um cenário de festa, uma cor que funciona muito bem com luz artificial, que nos remete para um ambiente mais dramático e, ainda assim, está na família destas cores que convidam a um descanso e que têm uma origem completa na natureza. Porque os verdes são cores que nos permitem trazer um pouco do exterior para o interior.