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Graça Paz, onde o silêncio

do campo se torna cor.

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Este mês conversámos com Graça Paz, uma artista cuja obra parece habitar o equilíbrio exato entre a ordem geométrica e a liberdade emocional. Através das suas camadas de cor e composições rítmicas, Graça convida-nos a entrar num universo onde o rigor visual nunca anula a sensibilidade. Mais do que apenas técnica, o seu trabalho é um eco constante de vivências e de uma herança visual que se transforma em tela. Nesta conversa, queremos desvendar o que acontece na solidão do atelier: o seu processo criativo, a relação intuitiva com a matéria e as memórias – visuais ou afetivas – que continuam a ditar o ritmo do seu pincel ainda hoje.

Em breves palavras, quem é a Graça Paz enquanto artista?

O meu nome é Graça Paz, sou uma artista abstrata geométrica, e o meu trabalho foca-se muito no uso da cor. Vivo fora da cidade, escolhi o campo para viver, o que informa o meu trabalho e sou uma solitária no meu trabalho. Escolhi o meu processo, a minha forma de me mover dentro da arte.

O ambiente em que cresceste, ligado à música clássica, teve naturalmente uma grande influência. Há algum momento específico que sintas ter sido “o início de tudo”?

O ambiente de música clássica em que eu cresci informou, de alguma forma, o meu trabalho atualmente – porque quando eu escolho música para o meu ateliê, tenho uma tendência para a música clássica. Quando eu era pequenina, o meu pai chegava à noite do trabalho e fechava-se na sala a ouvir música clássica. E há certos compositores que me acalmam e que me dão um flow muito bom para trabalhar, como seja Mozart ou Bach. Mas também gosto muito do silêncio como espaço criativo. Portanto, toda essa informação da minha infância veio, sem dúvida nenhuma, impactar o meu trabalho. E acho que até a parte geométrica, porque a música clássica tem algo de geométrico em si, também, e um pouco romântico.

E como é que essa ligação à música se traduz hoje no teu trabalho?

Eu acho que a ligação à música se traduz no entendimento entre o espaço de som e o espaço de silêncio. Traduz-se nos meus moods. Há dias em que eu venho e preciso de música, há dias em que eu venho e preciso de silêncio, e claro que impacta aquilo que eu vou pintar. De maneira que a música se tornou uma companheira, uma memória da minha infância, sendo que eu cresci também na loja do meu pai e havia todo um sentido estético – era uma loja desenhada por arquitetos. Por isso, o sentido estético em que cresci, que veio muito do meu pai e do ambiente dele musical, vem para o meu trabalho com certeza.

A tua linguagem artística é realmente diferenciadora. Como é que essa linguagem se foi construindo?

A minha linguagem artística demorou muitos anos a chegar a um ponto em que eu encontrasse a forma como eu me queria expressar. Então, eu acho que isto não é um processo comum a mim, é comum a todos os artistas e a todas as pessoas, em geral – primeiro andarmos por caminhos que não são aqueles que nós queremos, mas que informam aquilo que nós vamos fazer quando encontramos o caminho, não é? Portanto, eu passei pelo figurativo, pela landscape, a paisagem, passei pelo design, a ilustração, e a dada altura tive a oportunidade de fazer um trabalho onde me foi pedido algo mais abstrato. E, de repente, sem eu ter tido ainda consciência prática no sentido de trabalhar isso, percebi que era aquilo que eu pesquisava – era o abstrato. E o abstrato tem muito a ver com a minha maneira de pensar, sendo que eu gosto de pensar. Acho que pensar é uma coisa maravilhosa, e que se transporta para o trabalho de uma forma abstrata. Portanto, tudo isto que vocês veem aqui é a minha forma de pensamento numa tentativa de organização. É uma tentativa de organização mental num mundo que às vezes é bastante caótico.

Como é que este espaço e esta “fuga para o campo” influenciam o teu processo criativo?

Eu acho que essa pergunta é crucial porque eu vivi quarenta anos no Porto, mudei-me para aqui em 2009, e o sentido de lugar dos sítios influencia toda a nossa biologia, o nosso lado físico, mental, emocional, sobretudo quando chegamos a um sítio onde nos sentimos alinhados e que é a nossa casa, muito embora não tenhamos nascido ali. Eu não nasci aqui, nasci no Porto, mas imediatamente me senti muito mais em casa aqui do que no Porto. Quando há essa paz interior, quando há esse sentido de lugar, o trabalho, com toda a certeza, flui de uma maneira completamente diferente e vai ser influenciado não só por esse sentimento, mas por toda a paisagem. Sendo que aqui eu passo a vida na rua, porque há um convite para sair, há um convite da natureza, há espaço, há linhas abstratas nos campos, os campos de milho, então isso, sem querer, vai informando uma certa tendência que eu tenho para certas formas, certas linhas. Só reparo nisso quando pego nos meus sketchbooks, vou lá para fora desenhar e apercebo-me que há uma repetição daquilo que eu desenhei da paisagem ao vivo, que está à minha volta, o meu ambiente circundante e aquilo que depois eu trago para as telas. Não quero dizer que isso seja sempre assim, mas claro que o sítio onde nós vivemos é fundamental para influenciar o nosso dia-a-dia de trabalho.

Li num texto teu que “a arte surge para o artista como uma responsabilidade de servir”. O que é que gostavas que uma pessoa levasse consigo depois de estar diante de uma obra tua?

Aquilo que eu gostava que a pessoa levasse é uma ferramenta que lhe permita encontrar um equilíbrio interno, diariamente. Portanto, o quadro é uma peça que informa, é uma entidade que numa casa informa. E eu dou um exemplo: é como colocarmos um quadro que tenha uma imagem mais agressiva à beira da nossa mesa de jantar. Ele vai informar a forma como nós nos alimentamos, não é? Então, as pessoas levam algo, sentindo-se magnetizadas por uma determinada obra ou por uma determinada cor. Acho que existe o início de uma conversa e de um conteúdo que eu forneço, mas que a pessoa leva para casa para que informe o seu dia-a-dia de forma a trazer um equilíbrio, uma paz, um questionamento, ou contemplação. Eu acho que uma obra é mais do que um elemento decorativo, é uma entidade que está ali a viver naquela família, ou com aquela pessoa, e que tem uma função.

Há sempre muita cor na tua arte. A cor é muitas vezes o ponto de partida?

Eu diria que não sozinha. A cor sempre foi para mim o meu mundo interno. Sempre foi algo que eu sei mexer muito bem, mas não é o ponto de partida. Se calhar as formas são mais o ponto de partida. Muitas vezes, eu tenho uma imagem de uma obra e ela começa por formas e não por cores. A cor é uma coisa intuitiva, é uma relação intuitiva que nós temos com as nossas próprias cores e está ligada às emoções. Por exemplo, se uma pessoa adora vermelho, eu percebo um pouco o mundo interior daquela pessoa. Então, a cor vem no momento certo, mas começa primeiro com a forma.

Se tivesses de escolher 3 cores para descreverem o teu trabalho quais seriam?

Eu tenho uma paleta que já percebi que se mantém fixa. Ou seja, são cores de base – como temos na roupa os básicos e depois adicionamos o resto – com um espaço em aberto, um vazio na paleta para as cores que eu acho que são necessárias naquele momento.

Sem dúvida nenhuma, há os azuis, sendo que o Azul Ultramarino é uma cor que está muito presente no meu trabalho; o Azul Indantreno, que é tipo um Dark Blue, é uma cor que eu acho profunda, intensa e que promove uma certa contemplação; e o Powder Blue, que é um azul mais empoeirado, mais sujo, um azul claro. Estas são cores que eu acho que estão sempre presentes, muito embora todas estejam dependendo das fases.

Aquele espaço vazio, por exemplo, neste momento, contém um vermelho terra, que eu ando a trabalhar há muito tempo. Ou seja, há uma ligação entre os azuis e o vermelho terra, e eu sei internamente de onde é que isso vem – é uma necessidade de enraizamento, sendo que o azul mergulha-nos e o vermelho terra faz-nos enraizar. É como se estivéssemos com um pé num lado e um pé no outro. Portanto, os azuis, esses três azuis, acho que estão sempre presentes.

Existe alguma cor com a qual não gostes de trabalhar?

Não, eu gosto de trabalhar com todas as cores, não gosto de certas misturas de cores. Por exemplo, preto e laranja, flúor, que é uma cor que eu uso muito também – os flúores –, para trazerem luz aos quadros. É uma dualidade que me dá um certo mal-estar. O laranja, num todo, sozinho, dá-me um certo desconforto. Eu acho que o laranja está ligado à criatividade e, como eu tenho muito disso, talvez o laranja me deixe demasiado overwhelmed.

Qual é a tua a memória mais colorida?

A minha memória mais colorida? Ok, uma memória onde eu volto muitas vezes: Ponte de Lima, a quinta dos meus tios, uma casa grande, eu devia ter cinco, seis, sete anos, não me lembro muito bem. É uma idade onde eu volto porque me sentia feliz nessa idade. Os meus pais iam para cima e eu ia para a casa da caseira, em baixo. Uma senhora toda vestida de preto, uma casa separada por cortinas de chita às flores – um espaço inteiro separado por cortinas – e eu lembro-me de ser pequenina e de andar a vaguear pela casa e deles dormirem todos na mesma cama, a família toda. Eram outros tempos.

A primeira coisa que eu fazia quando chegava lá era abrir umas arcas enormes que eles tinham, que para mim na altura eram gigantes, e lembro-me de a caseira tirar um pão daqueles gigantes da aldeia, cortar um pedaço e dar-me e depois dizer – “Gracinha, vamos ver os pintainhos, vamos ver os coelhinhos.”

Essa memória para mim é incrível. É uma memória onde eu volto sempre e, sem dúvida, colorida.