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Anna Westerlund,
a cor como matéria prima.

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Há uma poesia silenciosa na forma como Anna Westerlund molda a matéria. Olhar para as suas peças é entrar num universo onde a cerâmica deixa de ser apenas um objeto funcional para se tornar numa narrativa de afetos, texturas e imperfeições deliberadas. Com um percurso profissional consolidado, marcado pela transição da Moda para o Artesanato Contemporâneo, a ceramista transformou o seu atelier num laboratório de histórias moldadas à mão.

Começou por estudar Marketing e Publicidade, passou pela Moda e acabou por encontrar na cerâmica o caminho para a sua expressão artística. Fale-nos um pouco desse caminho.

Comecei por estudar Marketing e Publicidade um bocadinho como um desvio daquilo que eu sabia que queria fazer, se calhar numa altura em que estudar Artes não era uma coisa tão imediata, era um bocadinho mais desafiante. A Publicidade e o Marketing surgiram como uma alternativa criativa para quem tinha estudado Economia no secundário. E foi essa a razão pela qual eu escolhi esse curso. Que, entretanto, não acabei porque rapidamente, mais ou menos rapidamente, percebi que não era isso que eu queria fazer.

Mesmo tendo feito esse desvio, sente que todas essas vidas anteriores deixaram uma marca na artista que é hoje?

Sim, sem dúvida que tudo aquilo que nós vamos fazendo é como acrescentar coisas na nossa bagagem, na mala com que caminhamos na vida. Ter passado pela Moda e ter feito o curso de Publicidade e Marketing, acrescentou valor e riqueza àquilo que eu decidi depois, que foi ir estudar cerâmica. Diria até principalmente a Moda – e é engraçado que acho que até mais hoje em dia percebo o quanto se tornou uma referência para mim. A mistura que a Moda é. A mistura de várias visões, a mistura da criatividade de várias pessoas, a mistura de materiais, a mistura de cores, de padrões. Eu tenho um lado que gosto muito do têxtil, e do que o têxtil nos permite criar e inventar. Por isso, sem dúvida que a Moda foi uma influência. Se calhar não estava muito consciente disso na altura, mas claramente foi.

Há muita liberdade na forma como a Anna se expressa e isso é visível no resultado das suas peças. De que forma é que esta linguagem artística se foi construindo ao longo dos anos?

Se calhar, acabei por escolher cerâmica porque na altura era uma matéria e uma área que eu sentia que me permitia ter liberdade para trabalhar em várias linguagens sem haver um rótulo. A cerâmica, para mim, era uma matéria que me permitia exprimir, fazer aquilo que me apetecesse. Se fosse uma peça mais escultural, ou se fosse uma peça utilitária de pôr na mesa, era indiferente, uma coisa não comprometia a outra. Pelo menos eu sentia isso, que podia fazer o que me apetecia sem necessidade de me encaixar num rótulo de uma coisa ou de outra.

Na rubrica Portraits, falamos muito sobre a influência que os espaços têm na nossa criatividade. Podemos dizer que este atelier é o epicentro do seu universo criativo?

Este espaço tem evoluído – já que me instalei nele de uma forma um bocadinho rápida e caótica – e tenho vindo a organizá-lo de maneira a estruturar não só o atelier como a mim mesma. E tenho, só muito recentemente, um espaço meu dentro do atelier que acaba por ser assim a minha bolha, onde eu costumo dizer: “Quando eu estou aqui no meu canto, não falem comigo.”. E tudo isto também é uma construção, no sentido em que é como se o espaço também acompanhasse a minha forma de me relacionar com o meu trabalho e com o atelier. E, se calhar por alguma razão, só agora criei o meu cantinho, porque tive esta necessidade de me distanciar e olhar o trabalho um bocadinho visto de fora.

Há alguma regra para o seu dia? Como é um dia aqui no atelier?

Na verdade, não tenho muitas regras para o meu dia e acho que esse é um dos meus handicaps. O meu maior desafio é criar regras para o meu dia, ter horários para cada coisa que tenho de fazer. Por isso, vivo assim o meu dia a dia aqui no atelier um bocadinho ao sabor dos acontecimentos e do que é necessário fazer. Mas, claro que tenho momentos em que estou focada no meu trabalho e tento criar. Acho que essa é a principal regra que eu tenho, é criar blocos de tempo em que posso estar focada em fazer, a prioridade de ter este tempo – isso e os meus filhos que interrompem o meu dia várias vezes, mas que têm essa permissão (risos).

Esta rubrica da CIN Antologia celebra sobretudo as histórias por trás dos criadores. Se as suas peças falassem, que histórias é que gostava que elas contassem a quem as leva para casa?

Gostava que elas sentissem que carregam uma energia feliz e uma vibração com os outros. E que pudessem falar dessa forma descontraída de estar na vida, desta liberdade da junção de cores e padrões, sem grandes pretensões, no sentido em que não pretendem ser importantes, mas pretendem ter alguma importância. Qualquer coisa assim.

Que ambiente cromático precisa de ter à sua volta para se sentir inspirada e em equilíbrio?

A cor é a minha matéria de trabalho preferida e a cor é mesmo importante. Não só porque carrega emoção, mas também porque comunica connosco. Por isso, quando eu digo que é a minha matéria preferida, é quase como se eu sentisse que podia trabalhar com qualquer tipo de material desde que envolvesse cor. Uma das coisas que mais prazer me dá é pensar a cor, pensar a combinação das cores, perceber como é completamente diferente juntarmos uma cor com outra ou mudarmos só ligeiramente o tom. Às vezes é assim uma espécie de entusiasmo infantil. Por isso, se há universos cromáticos onde eu me identifico mais? Gosto de cores com personalidade, cores vibrantes.

Como é que a escolha da paleta de cores dita o nascimento de uma peça? A cor surge antes da forma ou adapta-se à textura da matéria?

Há alturas em que eu imagino a cor das peças primeiro, mas acho que o meu processo de trabalho acaba por ser um bocadinho assim: quase como se eu visse a peça como um corpo que se veste primeiro de uma roupa, de um padrão, de uma camada têxtil, e que a seguir é adornada. Ou seja, só depois de ela estar vestida escolho os acessórios que a completam. Por isso, claro que pode haver algum projeto específico em que eu tenha de pensar a cor primeiro, mas normalmente vem depois da forma.

Na cerâmica, a cor que se aplica antes de ir ao forno muda bastante após a cozedura. Como é lidar com essa ‘surpresa’ e transformação da cor? É um processo de controlo ou de entrega ao imprevisto?

Sim, na cerâmica é desafiante a questão da cor. Claro que com a prática nós já vemos a cor final. Mas, lembro-me do meu primeiro trabalho, quando estava a estudar cerâmica, das peças irem para o forno supostamente num branco clarinho e saíram assim num bege amarelado, e da minha professora dizer para “Eu me ir habituando.” E eu: “Não, não, não, não, isso não funciona assim.” A cor é mesmo importante, não há aqui uma adaptação nesse sentido. Por isso, se calhar, habituei-me a fazer muitos testes de cor primeiro. Claro que o elemento surpresa pode ser interessante e não quer dizer que não se goste do resultado, mas gosto de controlar a cor com que quero trabalhar. E, nesse sentido, a cerâmica exige mais trabalho de antecipação.

As suas peças misturam muitas vezes a cerâmica com elementos têxteis. Como é que pensa o equilíbrio cromático entre materiais tão diferentes? A cor serve para unir estes dois mundos ou para criar contraste?

Eu acho que uma das razões pela qual eu trouxe esta junção de materiais é precisamente a questão da cor. Porque me permite ter uma paleta de cores muito maior. Na cerâmica eu podia não encontrar cores tão vibrantes, ou não conseguir trabalhar com combinações de cores específicas, e trazer outros materiais é como se ampliasse a minha paleta de cores. Dá-me maior liberdade.

Às vezes, até acontece uma peça de cerâmica ser de uma cor específica já pensada a ser combinada com outra cor dos têxteis. Essa outra fase dá-lhes mesmo uma nova vida. Ou seja, há peças que se calhar eu nem adoro quando saem do forno, mas depois quando vão a essa fase em que acrescento os outros materiais, ganham completamente uma nova vida, e eu acho que isso vem muito dessa combinação das cores que acontece aí.

Há alguma cor com a qual a Ana não gosta de trabalhar?

Acho que não há nenhuma cor com que eu não goste de trabalhar.

E há cores favoritas?

Há. Ou, se calhar, mais do que cores favoritas, há combinações de cores favoritas. Algumas mais cliché, como rosa e vermelho, ou laranja e rosa, ou bordô e verde seco. Combinar cores é mesmo uma brincadeira divertida.

Qual é a sua memória mais colorida?

É engraçado porque aquilo que me veio logo à cabeça sou eu miúda a apanhar e a comer mirtilos. O meu pai é sueco, por isso tive uma infância muito livre no campo e o que adorava fazer no verão era ir apanhar mirtilos – que não eram como os de agora, porque eu ficava toda azul, com a língua toda azul. Depois, sentávamo-nos à beira da estrada e quando passava um carro eu deitava a língua de fora para verem a minha língua azul. Acho que é assim a primeira memória colorida que me vem à cabeça.